Rousseau: Natureza e Civilização

Rousseau viu a sociedade como não natural, mas artificial. Em outras palavras, para definir a “natureza humana”, devemos pensar sobre o que os humanos teriam sido antes da sociedade.

Um dos aspectos mais importantes do homem no “estado de natureza” é a condição de liberdade plena. Primeiro, o homem natural é fisicamente livre porque ele não é constrangido por um aparelho de Estado repressivo ou dominado por seus semelhantes. Em segundo lugar, ele é psicologicamente e espiritualmente livre porque não é escravizado a nenhuma das necessidades artificiais que caracterizam a sociedade moderna.

ser social

De acordo com Rousseau, as “necessidades” do homem social (civilizado) resultam das paixões, que fazem as pessoas desejarem um objeto ou atividade. No estado da natureza, as necessidades humanas são estritamente limitadas às coisas que asseguram a sobrevivência e reprodução, incluindo alimentos, sono e sexo.

Em contraste, à medida que a cooperação e a divisão do trabalho se desenvolvem na sociedade moderna, as necessidades dos homens se multiplicam para incluir muitas coisas não essenciais, como amigos, entretenimento e bens de luxo. À medida que o tempo passa e essas necessidades se tornam cada vez mais parte da vida cotidiana, elas se tornam necessidades.

Embora muitas dessas necessidades sejam inicialmente prazerosas e até boas para os seres humanos, os homens da sociedade moderna acabam se tornando escravos nessas necessidades supérfluas e toda a sociedade está unida e moldada por sua busca.

Como tal, as necessidades desnecessárias são o fundamento da “desigualdade moral” moderna, na medida em que a busca de necessidades inevitavelmente significa que alguns serão forçados a trabalhar para satisfazer as necessidades dos outros e alguns dominarão seus companheiros quando estiverem em condições de fazê-lo.

 

Referências (adaptadas):

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O Estado em Aristóteles

Origem do estado

A teoria de Aristóteles sobre a origem do estado, sua natureza e o fim repousa em várias premissas. Em primeiro lugar, a origem do estado depende da natureza triangular da alma humana. A partir desta teoria, ele inferiu que o homem é racional e irracional e é seu propósito seguir o primeiro em preferência ao último. Isso, por sua vez, está relacionado à teoria das causas – a causa final é o fim da forma essencial, que uma coisa atinge.

A segunda premissa é a teoria da felicidade de Aristóteles, que ele chama de qualidade da alma que só poderia ser alcançada no Estado. Em terceiro lugar, Aristóteles nunca acreditou em nenhuma necessidade de distinguir entre o estado e a sociedade. Segundo ele, essas duas instituições são indistinguíveis e complementares entre si.

Em quarto lugar, o estado não é meramente a maquinaria conveniente que levanta um homem acima de seu animal quer e o deixa livre para seguir suas próprias luzes; É ele próprio o seu fim ou, pelo menos, parte dele. O Estado não é meramente um instrumento através do qual o indivíduo pode alcançar uma forma específica de bens humanos dentro do compasso de sua vida terrena, mas é a forma final que o homem poderia alcançar.

O estado, de fato, é mero agregado de indivíduos. Não se baseia em um dispositivo artificial. Não é um contrato. É natural, em outras palavras, inerente à natureza do homem, isto é, razão e razão expressas através da linguagem. A linguagem, por sua vez, é um meio de comunicação.

Assim, o homem é um ser gregário por natureza. Ele nasceu em uma sociedade, e é só por isso que ele sobreviveu. A sociedade também é natural porque é a consumação da natureza mais alta do homem. Se existe uma maior cooperação entre o Estado e os indivíduos, e eles são mutuamente complementares uns aos outros, então a liberdade do indivíduo está em conjunto com a lei da região, a lei é um instrumento de auto-realização, o padrão de justiça.

Objetivos do Estado

Aristóteles acreditava que, através do estado e das leis, o homem alcança sua mais alta virtude e perfeição e se torna cidadão, tem uma virtude específica e se torna um aristocrata capaz de compartilhar a atividade pública e desempenhar funções públicas.

Aristóteles considera o estado como a manifestação suprema da natureza essencial do homem. Ele declarou uma vez que, aquele que é incapaz de viver em uma sociedade, ou que não precisa, porque é auto-suficiente, deve ser um animal ou Deus.

Assinala Aristóteles que “efetivamente, o homem, quando perfeito, é o melhor dos animais, mas é também o pior de todos quando afastado da lei e da justiça, pois a injustiça é mais perniciosa quando armada, e o homem é dotado de armas para serem usadas pela inteligência e pelo talento, mas podem sê-lo em sentido inteiramente oposto. (…), a justiça é a base da sociedade; sua aplicação assegura a ordem na comunidade social, por ser o meio de determinar o que é justo” (ARISTÓTELES, 1997, p, 16).

O Estado Ideal

Aristóteles sempre se esforçou para alcançar um estado ideal. De acordo com ele, em cada estado existem três classes, a saber, as muito ricas, as muito pobres e a classe média (a média). Aqueles que são ricos se destacam em força, beleza; Nascimento ou riqueza e eles se tornam arrogantes, violentos e criminosos.

Os pobres, por outro lado, são feios, fracos e muitas vezes se tornam vítimas de ciúmes, intrigantes, mafiosos e pequenos patifes. Enquanto os primeiros não obedecem às leis, estes últimos tendem a quebrar as leis. O governo, portanto, pelo primeiro seria despótico e aquele formado por este seria desprezível. Em qualquer situação, o estado permanece dividido por conflitos, amargura, ciúmes e fricções.

estado aristoteles 2

Portanto, Aristóteles sugeriu que os legisladores devem sempre assegurar a associação da classe média com o governo. Se for numericamente mais forte que as outras duas classes, então é definitivamente uma fonte de estabilidade. Aristóteles opinou que a regra contínua, tanto pelo rico como pelo pobre, é a pior calamidade, que pode acontecer a um estado e, por essa razão; Ele apoiava a regra da classe média, como a melhor regra – é o significado dourado.

Aristóteles acreditava que a regra da classe média garante não apenas a estabilidade, mas também a liberdade e a igualdade. A liberdade não faz necessariamente o que alguém gosta de fazer, mas também é viver de acordo com a regra da constituição. A liberdade também se refere à capacidade de governar, bem como ser governado. Isso é justiça. Assim, a liberdade, de acordo com Aristóteles, é baseada na justiça, que é distributiva, e baseia-se na igualdade proporcional.

 

Referências (adaptadas)

 

A Teoria da Alma em Aristóteles

Para Aristóteles, os homens não são os únicos seres que possuem alma (ou psique); todos os seres vivos a possuem, desde as margaridas e moluscos aos seres mais complexos. Uma alma é simplesmente um princípio de vida: é a fonte das atividades próprias de cada ser vivo. Diferentes seres vivos possuem diferentes capacidades: as plantas crescem e reproduzem-se, mas não podem mover-se nem ter sensações; os animais têm percepção, sentem prazer e dor; alguns podem mover-se, mas não todos; alguns animais muito especiais, nomeadamente os seres humanos, conseguem também pensar e compreender. As almas diferem de acordo com estas diferentes atividades, por meio das quais se exprimem. A alma é, segundo a definição mais geral que Aristóteles nos apresenta, a “forma” de um corpo orgânico.

 

alma aristoteles

 

Tal como uma forma, uma alma é um ato de um tipo particular. Neste ponto, Aristóteles introduz uma distinção entre dois tipos de ato. Uma pessoa que não saiba falar grego encontra-se num estado de pura potência no que diz respeito à utilização dessa língua. Aprender grego é passar da potência ao ato. Porém, uma pessoa que tenha aprendido grego, mas que ao longo de um determinado tempo não faça uso desse conhecimento, encontra-se num estado simultâneo de ato e potência: ato em comparação com a posição de ignorância inicial, potência em comparação com alguém que esteja a falar grego. Ao simples conhecimento do grego, Aristóteles chama “ato primeiro”; ao fato de se falar grego chama “ato segundo”. Aristóteles utiliza esta distinção na sua descrição da alma: a alma é o ato primeiro de um corpo orgânico. As operações vitais das criaturas vivas são atos segundos.

A alma aristotélica não é, enquanto tal, um espírito. Não é, de fato, um objeto tangível; mas isso resulta do fato de ser (como todos os atos primeiros) uma potência. O conhecimento do grego também não é um objeto tangível; mas não é, por isso, algo de fantasmagórico. Se há almas capazes, no seu conjunto ou em parte, de existirem sem um corpo — questão sobre a qual Aristóteles teve dificuldade em formar uma opinião — tal existência independente será possível não por serem simplesmente almas, mas por serem almas de um tipo particular com atividades vitais especialmente poderosas.

 

Referência (adaptada)

http://www.rpvirtual.com/aristcien.html

O “agradável”, o “bom” e o “belo” na filosofia kantiana

Na Crítica do Juízo Estético , Kant explora a noção de beleza e como ela se relaciona com a experiência humana.

Inicialmente Kant afirma que contemplar a beleza é uma experiência subjetiva sentida diretamente no interior da mente da pessoa. Ele afirma que é muito parecido com um gosto, em que realizamos um julgamento imediatamente e sem pensar. Por exemplo, se comemos uma taça de sorvete de chocolate, sentimos o prazer de seu gosto automaticamente. Se virmos algo bonito, sentimos uma explosão interna semelhante de prazer imediato ao ver o objeto. No entanto, ao contrário do sorvete, quando se trata de beleza, não temos interesse no objeto. Em outras palavras, não nos importa se o objeto belo é real ou não, apenas que é bonito. Quando se volta para o sorvete, não podemos dizer que seu sabor é bonito, porque está ligado ao nosso desejo corporal de fome. É aqui que Kant faz uma distinção importante entre o que é “agradável”, o que é “bom” e o que é “belo”: O agradável é o que gratifica um homem; O bonito, o que simplesmente o agrada.

Em outras palavras, quando algo é agradável, ele está ligado a algum tipo de desejo, como a fome ou a luxúria, e quando algo é bom, está ligado ao nosso senso de julgamento moral, ou seja, se algo é bom ou ruim. A beleza, por outro lado, está livre desses laços e, portanto, é mais pura – está entre nossos desejos e nossa moralidade. Estamos desinteressados no próprio objeto.

Em seguida, Kant propõe que se algo deve ser considerado bonito, também deve estar livre de quaisquer ideias lógicas. Ele se refere a estes como “conceitos”. Isso significa, para Kant, que não pode haver “condições pessoais” que possam ser colocadas pela lógica sobre o objeto. Não posso, portanto, convencer meu amigo a pensar que a pintura de Michelangelo na Capela Sistina é linda porque representa a maravilha de Deus. Deve ser simplesmente auto-evidente que é belo para nós dois por causa de sua forma estética, sem fazer uso da razão. Desta forma, Kant mostra que um senso de beleza deve ser universal.

Por fim, Kant fornece a definição extra: A beleza é a forma de finalidade em um objeto, tanto quanto percebida nele, além da representação de um fim.

O que ele quer dizer aqui é que quando experimentamos um objeto bonito, ele só pode ser bonito como uma coisa completa, sua totalidade de forma. Não podemos dizer que um vale é bonito simplesmente por causa de sua cor verde lustrosa, mas sim por causa de toda a maneira como o verde interage com como as inclinações do solo, como as árvores balançam e como nos dá prazer vê-lo. Além disso, este prazer deve estar livre de nossa compreensão do propósito do objeto. Por exemplo, um carro não pode ser bonito em relação à forma como ele dirige, mas apenas na maneira como ele é contemplado.

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Créditos da imagem: Alessandro Góes, Mariana Falcão e Patrick Alves (estudantes do 2º ano – Curso de Informática – IFBA – Campus Santo Amaro)

 

Kant define a beleza como sendo julgada através de uma experiência estética de gosto. Esta experiência deve estar desprovida de qualquer conceito, emoção ou qualquer interesse no objeto que estamos descrevendo como bonito. Acima de tudo, a experiência de beleza é algo que sentimos.

Concepções de realidade: Platão e Aristóteles

Platão, tal como os pré-socráticos, não buscava as verdadeiras essências na forma física (que são corruptíveis, variam, mudam, surgem e se vão), mas sob a influência de Sócrates, buscava a verdade essencial (através das “Ideias” ou “essências”). Ele considerava buscar a verdade plena em algo estável e nas verdadeiras causas, pois a verdade não pode variar.

realidade platao

A teoria das Ideias de Platão representa a tentativa de conciliar as duas correntes anteriores: a concepção do “ser”, eterno e imutável, de Parmênides e a concepção do ser plural e móvel (a Arché que ele denomina de “fogo”) de Heráclito. Para Platão, o ser eterno e universal habita o mundo da luz racional, das Ideias, da essência e da realidade pura. E os seres individuais e mutáveis moram no mundo das sombras e sensações, das aparências e ilusões.

 

Para Aristóteles, existe um único mundo: este em que vivemos. Só nele encontramos bases sólidas para empreender investigações filosóficas. Para explicá-la, Aristóteles recorre às noções de MATÉRIA e FORMA. Por matéria ele define o princípio indeterminado de que o mundo físico é composto; Forma é aquilo que “faz com que uma coisa seja o que é”.

realidade aristoteles

Apesar de se transformar com o tempo, é através dela que conseguimos reconhecer as coisas e organizá-las. Em qualquer caso, a substância é para Aristóteles uma fusão de matéria em forma.

 

Referências (adaptadas)

A justiça como harmonia da alma

Platão nunca deu definição completa ao conceito de alma (ψυχή, em grego), mas muitas e variadas descrições que enfatizam cada uma das qualidades ou propriedade particular. De modo geral pode-se afirmar ser a alma um “princípio de movimento” e “pensamento”. Para Platão, a alma é um ser semelhante às “ideias” (as essências), o divino, que tem seu próprio movimento. Ela é imortal e consiste em três partes:

platao partes da alma

Para se atingir uma “vida boa” (baseada no bem), é necessário que a alma racional governe a alma irascível e que esta regule a alma concupiscente, sendo a harmonia destas três partes da alma a virtude da justiça.

Três partes da alma, conforme Platão

Em decorrência de suas relações com o corpo, a alma humana não é uma unidade simples, mas é múltipla, conforme a função que realize: conservação do corpo, proteção do corpo e conhecimento. Platão situa cada função da alma numa região do corpo:

Parte ou função apetitiva ou concupiscente: situada “entre o diafragma e o umbigo, ou baixo ventre”, busca comida, bebida, sexo, prazeres, isto é, tudo que é necessário para a conservação do corpo e para a geração de outros corpos. Ela dá origem a desejos para estas e outras coisas que, em cada caso, se baseiam, de forma simples e imediata, no pensamento de que a obtenção do objeto relevante do desejo é ou seria agradável. Como uma força motivadora, ela geralmente explica a auto-afirmação e ambição. Quando seus desejos são frustrados, ela dá origem a respostas emocionais como raiva e indignação, e ao comportamento que expressa e naturalmente flui de tais respostas. Essa parte é irracional e mortal, terminando com a morte do corpo.

Parte ou função colérica ou irascível: situada “acima do diafragma na cavidade do peito”, se irrita ou se enraivece conta tudo quanto possa ameaçar a segurança do corpo e tudo quanto lhe cause dor e sofrimento, incitando a combater os perigos contra a vida. Protetora do corpo, essa parte também é mortal e irracional.

Parte ou função racional: situada “na cabeça (face e cérebro)”, é a faculdade do conhecimento. Por sua própria natureza, está ligada ao conhecimento e à verdade. É, no entanto, preocupada em orientar e regular a vida que é idealmente responsável pela sabedoria, mas que leva em consideração as preocupações de cada uma das três partes separadamente e da alma como um todo. Parte espiritual e imortal, é função ativa e superior da alma, o princípio divino em nós.

 

alma racional 4

Esquematicamente, temos em relação a virtude e os vícios da alma o seguinte quadro resumo:

resumo alma racional

 

Referências:

https://plato.stanford.edu/entries/ancient-soul/

CHAUÍ, Marilena. Introdução à História da Filosofia: dos Pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo: Cia. das Letras, 2002.